Notívaga
Sou notívaga, perambulo nas madrugadas
como as corujas, empertigadas, em cima dos muros.
Ouço os sons da madrugada, os que estão fora e
os que tenho dentro de mim.
Silêncios quebrados por sons de pássaros noturnos,
pessoas que passam, chave na fechadura, criança que chora.
Cortam a madrugada o choro dos amores mal resolvidos,
Os sonhos ainda não vividos, o som de risos perdidos na memória.
A madrugada está cheia de sons, música transcendental, natural
que não precisa de cordas ou teclas, vem no assobio do vento
ou nos acordes dos pingos de chuva na velha calha.
Não sei que hora o relógio marca, sei que estou acordada,
que o poema não deixa de ser uma oração silenciosa,
será que Deus ouve melhor nessa hora?
Resta depois esta vontade de chorar diante da beleza,
Resta esta súbita saudade de tudo e de nada,
até que os sons se esmaeçam enternecidos no sono
que finalmente chega…
Sônia Schmorantz
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Nos caminhos da ilha
Da janela vejo ruas sem nome
casas coloridas abrigadas em montanhas,
da janela sinto a brisa e cheiro dos eucaliptos,
o cheiro das ruas sem nome
onde vento balança verdes folhas
e nascem flores em pedras.
Estas ruas tem silêncios mágicos
como poemas ainda imaginados,
acabam no pé da montanha
mas seguem a caminho do mar…
Ruas de casas pequeninas e pequenos jardins.
Ruas sem nomes, sem números
que da janela vejo encantada
enquanto as flores crescem
agarradas às saliências das duras pedras.
O verão pinta o quadro
e eu aqui, o vejo
pela janela emoldurado…
Sônia Schmorantz
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Cheiro de saudade
Na alta madrugada gosto de deitar com a janela aberta, gosto de escutar os sons noturnos, pios de corujas, cães que ladram ao longe, gosto dos cheiros que acompanham a noite.
A madrugada silenciosa traz o cheiro de café, do leite fervendo, o gosto do pão com manteiga, porção de meninice, com gosto de felicidade.
O mundo cabia dentro da minha casa, e era um mundo de verdade, de perdão, de reconciliação.
Os ecos e os cheiros da infância nos apanham de surpresa, são o doce perfume da memória, momento de singular melancolia que como uma porta se abre, e a gente entra…
Sônia Schmorantz
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Floripolitana de Coração
Gaúcha, nos pampas nascida
Um grande sonho acalentei
Morar numa ilha encantada
Cheia de bruxas e fadas.
Nessa terra cheia de graça
Onde se juntam todas as raças,
Minha ilha lança ao poente
O azul espelhado da lagoa,
O verde silêncio das montanhas,
O rumorejar de um mar azul
Que beija apaixonado a areia da
Minha ilha de renda poética.
Não importa se há sol ou chuva,
A mágica ilha é sempre azul,
Fica gravada na alma e
Quem aqui vem sempre vai voltar,
Para descobrir novos caminhos,
Novos destinos, pois
Esta magia nunca irá acabar.
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Na poética mansidão da madrugada
Na poética mansidão da madrugada
Sonhos se refugiam na inquietação da alma.
A lua, farol iluminado ao longe
Hoje é quem me faz companhia.
A olhar as estrelas por entre nuvens.
Uma lágrima cai, mas não podem vê-la
Porque é da alma que sai…
Há noites assim,
Em que os corpos não se pedem,
São noites brandas de desejo,
Mãos que repousam em palavras de paz.
A cada noite numa folha branca
Os versos pedem para nascer na
Mansa inquietação com que me cubro
Nos dias em que não estás…
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Amo
Amo olhar o imenso areal parado no tempo,
Gaivotas sobrevoando, asas largas debatendo,
riscando o céu em vôos ignorados…
Amo os pássaros que semeiam cantos,
que vem em bandos, depois partem não sei para onde.
Mas deixam a paz e aos ouvidos o insistente canto.
Amo o som do mar, alegria vadia a invadir a areia,
passando, fluindo, cantando, sem parar…
Amo abraçar o vento, leve como o pensamento,
carregar conchas e sonhos, pensar que aqui sou feliz.
Se o tempo pesa nos ombros, confesso minha exaustão,
mas faço um novo poema para divertir a tristeza,
no final das contas a vida é boa e sonhos…bem,
sonhos são feitos para serem sonhados à toa…
Sônia Schmorantz
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Versos esparsos
Na oscilação imprecisa das águas da memória
Se fundem numa só verdade todas as lembranças.
Ao fundo do mar e de mim as memórias
Navegam barcos sob um céu azul,
Deslizando imprecisos, vagarosamente.
O barco se detém no remanso da água,
Corre-me água das mãos molhadas de mar, e
Uma ave pousa calada na proa…
Barco e rio são agora minha própria dimensão.
Memórias, barcos fazem parte da paisagem,
Da minha paisagem humana…
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Depois da Chuva
Depois da chuva vem o céu de prata
a iluminar os caminhos molhados,
a imagem poeticamente cinza dos
pássaros esvoaçando em galhos nús,
e as nuvens se arrastando com o vento.
Depois da chuva, brota a poesia
das calçadas molhadas,da terra lavada,
do capim cheiroso de beira de estrada,
Empresta um sonho perfeito,
planta sementes de poesia.
A chuva que atravessa a paisagem
deixa cair amarras e passa por mim,
abre as secretas janelas para ler
os mudos poemas tamborilando
nas calçadas.
Sônia Schmorantz
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Hoje
Hoje sou este azul,
sou entardecer, silêncio e magia,
sou do mar a imensidão,
sou da brisa a serenidade,
sou perfume, sou pecado,
sou vida e paixão,
sou luz de luar beijando o mar…
Hoje sou esta natureza,
sou vento que desenha nuvens,
sou a noite e seus pássaros,
voando nas asas do vento…
Sou mulher cheirando a flor,
alguém a quem chamam de poeta,
mas sei que poetisa não sou,
sou mulher desta natureza,
meus versos são apenas sentimentos
que dançam nas ondas do mar…
O que ainda me faz feliz…
Se alguém me perguntar o que ainda me faz feliz,
vou somente responder:
Sentir o calor do sol no meu rosto.
Escutar de olhos fechados os sorrisos
e as vozes das pessoas que se aproximam,
Olhar o mar pela janela do ônibus,
Viajar nas páginas de um livro.
Conhecer o amor na força de um beijo.
Saborear um café bem quente.
Acreditar em Deus e enfrentar a vida,
Mesmo que sem esperanças às vezes…
Relaxar num banho quente.
Sentir o perfume de lençóis recém lavados.
Contemplar o pôr-do-sol da sacada.
Passear de mãos dadas.
Namorar o Eduardo.
Um sorriso de paz.
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